Ponte para Terabitia

Escrevi este livro para meu filho David Lord Peterson, mas depois que ele o leu pediu que eu pusesse o nome de Lisa também nesta página, e estou pondo.

Para David Paterson e Lisa Hill, banzai.


Jesse Oliver Aarons Jr.

Vruum, vruum, vruum... Tuque-tuque-tuque-tuque... Ótimo. O pai tinha conseguido que a caminhonete pegasse.Agora Jess podia se levantar. Deslizou para fora da cama,caindo direto dentro do macacão. Não se preocupou com camisa, porque assim que começasse a correr ia esquentar que nem a água da chaleira. Nem com sapatos, porque suas solas dos pés a esta altura já estavam tão grossas comoas de qualquer calçado.

— Onde você vai, Jess? — perguntou May Belle, se levantando, sonolenta, da cama de casal onde ela e Joyce Ann dormiam.

— Pssiu... — avisou ele.

As paredes eram finas. Mamãe ficaria furiosa feito um touro bravo, se alguém a acordasse naquela hora do dia.

Ele acariciou o cabelo de May Belle e ajeitou o lençol enrolado, cobrindo-a até a altura do queixinho.

— Vou até o pasto — sussurrou.

May Belle sorriu e se encolheu debaixo das cobertas.

— Vai correr?

— Talvez.

É claro que ele ia correr. Tinha levantado bem cedo todos os dias do verão para correr. Metera na cabeça que,se se dedicasse bastante — e Deus sabia como estava se dedicando —, podia ser o corredor mais rápido da 5ª série quando as aulas recomeçassem. E tinha que ser o mais rá-pido. Não um dos mais rápidos, nem quase o mais rápido, mas realmente o mais rápido de todos. O melhor de todos.

Saiu de casa na ponta dos pés. O lugar estava tão velho que rangia cada vez que ele apoiava o pé no chão, mas Jess tinha descoberto que, na pontinha do pé, o baru-lho era só um gemido fraco, e geralmente conseguia chegar lá fora sem acordar a mãe, Ellie, Brenda ou Joyce Ann. Já com May Belle, a história era outra. Ela ia fazer sete anos e simplesmente o adorava, o que às vezes era ótimo. Quando você é o único menino de uma família, imprensado entre quatro irmãs, e as duas mais velhas te desprezaram desde o momento em que você não deixou mais que elas ficassem te vestindo para brincar de boneca, e te empurrando de um lado para o outro num carrinho enferru-jado, enquanto a menorzinha só faz chorar aos berros se você olhar para ela com uma cara mais séria, então dá para ver como é bom ter alguém que te adora. Mesmo se de vez em quando isso cria uns probleminhas. Atravessou o quintal bem depressa. Quando respirava, o ar saía em pequenas nuvens de vapor — estava bem frio para o mês de agosto. Mas é porque ainda era cedo. Lá pelo meio dia, quando a mãe o mandasse traba-lhar lá fora, já estaria bem quente. Miss Bessie olhou-o sonolenta, enquanto ele subia pelo monte de sucata e entulho, pulava a cerca e entravano pasto.

— Muuuu... — fez ela, olhando pra todo lado, como se fosse outra May Belle, com seus olhos castanhos enormes e caídos.

— Oi, Miss Bessie — cumprimentou Jess, para tranqüilizá-la. — Pode continuar dormindo.

A vaca caminhou até uma mancha de capim mais verde — o pasto estava quase todo seco e marrom — e abocanhou uma boa quantidade.

— Isso, menina. Assim é que eu gosto... Fique aí tomando seu café da manhã. Não ligue para mim.

Ele sempre começava no canto mais a noroeste do pasto, agachado como os corredores profissionais que tinha visto no Mundo dos Esportes.

— Bangue! — exclamou.

E partiu a toda velocidade pelo campo afora. Miss Bessie caminhou em direção ao centro do pasto, sempre a segui-lo com os olhos sonados, mastigando bem devagar. Não parecia uma vaca muito esperta, mesmo levando em conta que gado em geral não tem um ar muito sabido, mas era suficientemente inteligente para sair do caminho de Jess. O cabelo dele, cor de palha, balançava de encontro à testa, e os braços e as pernas se esparramavam para todo lado.

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